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sexta-feira, 15 de maio de 2009

Uns discos II - Crueza titânica incompreendida

O ano era 1991. Tempos de Collor e de pouca alegria para com o 1º presidente eleito democraticamente após mais de 02 décadas sob a égide dos milicos. A banda Titãs saía de um bem sucedido disco, "Õ blésq blom", e uma parceria de sucesso consolida com o produtor Liminha para o voo mais ousado e sujo de sua carreira. Eram dias da explosão grunge e os rapazes devem ter se sentidos capazes de produzir o seu próprio barulho de 1ª qualidade, algo próximo do "Cabeça Dinossauro", seu mais bem-sucedido trabalho até então. Esqueceram de avisar o público e a crítica.


Ninguém entendeu nada quando o Titãs lançou "Tudo ao mesmo tempo agora". O disco produzido num nível punk de sonorização e lirismo – se me faço entender... –, espantou todo mundo. As vendagens ultrapassaram pouco mais que as 100 mil cópias, algo impensável para o Titãs na época. A crítica não gostou da sujeira encontrada em forma de música – ao menos a crítica fresca. A maior parte do público também ficou chocada com o que ouviu. E o disco é até hoje visto com descaso por boa parte das pessoas. Bobagem do "espírito fresco" daqueles tempos.


Para mim, um dos melhores discos do Titãs, por diversos motivos. Primeiro, os cheios de dedos da crítica já deveriam estar de saco cheio em saber que a banda nunca foi de produzir um disco num estilo igual ao outro. Quando tentavam manter alguma semelhança, isso acontecia em no máximo dois discos seguidos – o que pode ser percebido nos 02 primeiros, no 3º e 4º álbum, entre outros.


Ainda assim costumavam deixar algumas referências do álbum seguinte no trabalho anterior. Basta escutar "Massacre", a última faixa do "Televisão" e compreender que o impactante "Cabeça dinossauro" poderia acontecer de qualquer forma. Ou a sonoridade com alguns experimentos eletrônicos no "Jesus não tem dentes..." e sacar sua maior evidência em "Õ blésq...". Este trouxe ao menos uma faixa que caberia no "Tudo ao mesmo..": "Medo".


O início de "Tudo ao mesmo tempo..." já deixaria os mais puritanos e caçadores de hit em estado de alerta. "Clitóris" abre o disco contendo uns versinhos singelos tipo "Virgem suja, ah!, surja suja" e "Em cada berço que esse esperma espesso inunda". Segue a espirituosa "O fácil é o certo", sem escatologia mas numa levada dançante com guitarras pesadas. "Filantrópico", "Cabeça" e "Já" mantêm a levada ora mais cadenciada, ora mais rápida, porém sempre com as guitarras em evidência.


A próxima é uma das minhas preferidas "Eu vezes eu". Um punk dos anos 90. "Isso para mim é perfume" e "Saia de mim" foram as duas mais visadas e tomadas como referência do disco. A primeira, cheia de guitarras e acelerada, trazia versos ainda mais escandalizantes para as freiras de plantão. Coisas do tipo "Cheirar sua calcinha suja na menstruação" e "Amor, eu quero te ver cagar" devem ter deixado a crítica chegada à metáforas enfurecida. Já a segunda, mais pesada e cadenciada, dizia: "Saia de mim como escarro, espirro, pus, porra (...) Saia de mim a verdade".


Seguem "Flat-Cemitério- Apartamento", "Agora", "Não é por não falar", "Obrigado", "Se você está aqui", "Eu não sei fazer música" e "Uma coisa de cada vez". Variam peso, velocidade, minimalismo. E coroam um disco excêntrico, mas ainda assim a cara do Titãs. Não sei quanto dos críticos especializados que incensaram a banda à época do "Cabeça..." ainda estavam vivos. Só sei que a celeuma causada em torno do "Tudo ao mesmo tempo..." foi tola. Os caras fizeram um "Cabeça..." mais punk, apenas isso.


Muitos dizem que o Titãs estava com cheio de idéias em voga no mainstream musical, tipo grunge e mesmo o peso industrial capitaneado pelo Ministry. Pode ser. Mas que alguém na banda andou vendo ou ouvindo coisas do splatter metal, subgenêro do death metal inspirado em escatologia, isso aconteceu. A capa do disco deles, cheia de vísceras e pedaços de corpos humanos de enciclopédia Barsa parece referência bem comportada à capa do Carcass em "Reek of Putrefecation", um "mimo" repleto de montagens com fotos de pedaços de corpos humanos nada frescos.



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Enc: Uns discos – Titãs


O Titãs anda meio perrengue. Já não tem aquela força de outrora e nos últimos 11 anos o negócio foi ficar mais no remember – próprio ou dos outros –, seja em discos ou shows, do que discos de inéditas. Não que eu ache isso totalmente ruim. Produziram algumas coisas interessantes como o "Acústico MTV" e outras razoáveis como o 2º acústico e o disco de covers, "As 10 mais", bem como "MTV ao Vivo Titãs". Essa última turnê, juntamente com os Paralamas do Sucesso, talvez tenha rendido bons momentos.


No entanto quero escrever sobre outra coisa. Especificamente dois discos da carreira do Titãs não muito lembrados: o de estreia e o "Tudo ao mesmo tempo agora". Isso porque ando fazendo uma busca em minha cdteca, gravando para meu computador várias músicas para posteriores coletâneas em mp3, a serem ouvidas nas tardes de sábado com um bom destilado ou mesmo uma cerveja bem gelada.


Decidi fazer um apanhado de cada disco das bandas que tenho. Vou ouvindo música por música, buscando coisas além dos hits óbvios. Descubro – ou redescubro – muita coisa boa. Outras nem tanto. Vale à pena. Mas voltemos aos Titãs.


O primeiro disco do Titãs é esquizofrênico, meio mórbido mesmo. Tem reggae, new wave e até brega – chego lá. Abre com a clássica e trivialmente maravilhosa "Sonífera Ilha". Hit instantâneo. Depois passa por "Marvin", "Babi Índio", "Go Back", "Pule" e "Querem meu Sangue", só para ficar no que seria, talvez, o lado A do vinil à época – 1984. Vou abster-me de comentar "Babi Índio" e "Pule"; são toscas lírica e musicalmente. "Babi índio enjoy selva coca cola", diz o início da 1ª. Seria efeito do concretismo ou os caras já anteviam os índios do século XXI com celulares e carros, mas sem abri mão da mãe-selva? A segunda, com certeza tem "concreto" na essência – a letra tem dedo de Arnaldo Antunes. Bem, acabei comentando. Volto-me ao que interessa.


"Marvin", "Go Back" e "Querem meu Sangue" são grandes canções? Não aqui. No meio da ainda efervescente new wave no Brasil, os caras fizeram um disco atirando para todos os lados e essas músicas sofreram influência do reggae – tocado insossamente. Tanto é que, das três, a primeira e a segunda foram regravadas posteriormente, com arranjos decentes e tornaram-se sucesso. A terceira recebeu uma roupagem de primeira no 1º acústico dos caras com direito a participação do "dono" dela em inglês, Jimmy Cliff, e aí sim se tornou uma indispensável canção.


Quanto ao restante do disco, ainda encontramos músicas como "Mulher Robot" e "Seu Interesse", que nada têm de interessante, e "Toda Cor", outro sucesso e ótima canção de levada new wave. Também inventaram uma versão em português para "Ballad of John and Yoko" extremamente exótica. A letra tem coisas do tipo "Cristo não é biscoito" e "Cristo não é fumaça"; um negócio esquisito. Contudo é a bregaça "Demais" que me espanta nesse disco. Se derem para um jovem nos dias de hoje escutar essa pérola e outra música tipo "Porrada", do disco "Cabeça Dinossauro", e pedirem para achar alguma relação, eles ficarão abismados com o inquiridor. Nunca diriam serem da mesma banda.


Produzido por Pena Schmidt, o 1º Titãs vale muito mais como registro histórico da banda do que propriamente um bom disco. Igualmente seria o capítulo inicial da história mutante-musical dos caras. Cada disco é praticamente um estilo, de preferência se estivesse evidenciado.


Na próxima postagem uma incursão no incompreendido "Tudo ao mesmo tempo agora".



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